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O que o caso Jack Ma revela sobre a rígida regulação chinesa?

No final de outubro do ano passado, o bilionário fundador do Alibaba, Jack Ma, participava do fórum financeiro Bund Finance Summit em Xangai quando fez um discurso crítico ao sistema regulatório chinês, e a partir de então, passou quase três meses desaparecido.

Entre as críticas, ele rotulou os reguladores financeiros como obcecados por minimizar os riscos, e ainda acusou os bancos chineses de se comportarem como “casas de penhor”, emprestando apenas para os que podem oferecer caução.

Isso o colocou em rota de colisão com as autoridades do regime de Xi Jinping, e teria levado à suspensão do IPO de US$ 37 bilhões do Ant Group, subsidiária financeira do Alibaba.

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Ma é membro do Partido Comunista chinês e grande símbolo do que alguns chamam de China Dream, por ter começado como professor de inglês e surfado na onda das big techs chinesas. Por sua frequência a eventos e palestras, as preocupações com seu desaparecimento começaram a aumentar quando ele faltou à final de um reality show em que era jurado.

Mas nesta quarta-feira ele voltou a público para participar de uma cerimônia online para professores rurais organizada pela sua fundação de caridade. Tranquilizou os investidores e, assim, as ações do Alibaba listadas em Hong Kong chegaram a subir 8,5%.

Afastando as conspirações

“Eu não daria muita atenção para o seu reaparecimento”, afirma com convicção o fundador e CEO da consultoria Ohm Research, Roberto Attuch Jr. “Se formaram muitas histórias e teorias da conspiração em torno do seu desaparecimento.”

Segundo Attuch, o foco dos acontecimentos está no que ele chama de arbitragem regulatória, o que significa que “Jack Ma estava tentando fazer o que um banco, ou instituição financeira faz, sem ser regulado como banco.” Isso resultou na suspensão do IPO do Ant Group.

O Banco Popular da China (banco central do país) convocou, no final de 2020, a fintech do Grupo Alibaba, para negociações regulatórias e anunciou um plano para a empresa “retificar” suas violações regulatórias.

Attuch salienta que a regulação do mercado é uma preocupação muito maior para o Partido Comunista chinês do que as críticas de uma figura popular. Para ele, independentemente de esquerda ou direita, “a China é uma ditadura como era o Chile de [Augusto] Pinochet.”

E como ditadura, o pacto social entre governo e governados foi de troca de liberdade política por progresso econômico, elevação das condições materiais e qualidade de vida. “Eles estão preocupados com convulsão social, gente na rua”, comenta Attuch.

EUA e big techs

Nesse sentido, segundo a análise de Attuch, a recente confusão entre o regime chinês está longe de inaugurar uma onda de novas regulamentações. Mesmo que o Alibaba seja a Amazon asiática, as big techs que se sentem tão ameaçadas por órgãos regulatórios nos EUA não têm motivo para esperar algo parecido da China.

Além de possuir sua própria muralha digital, um firewall controlado pelo governo para manter seus cidadãos isolados da internet estrangeira, o Estado chinês monitora dados de todos os tipos. “Nos EUA, o problema é justamente o contrário, as big techs é que possuem poder demais”, explica Attuch.

O único flanco que resta para ser atacado por reguladores ainda depende de como irá se desenrolar a rivalidade entre EUA e China. Até os últimos dias do seu mandato, o presidente Donald Trump fez sanções a empresas chinesas. Algo que não foi seguido completamente no princípio diplomático da reciprocidade pelo lado chinês contra empresas americanas.

E com Joe Biden, as chances de uma “chuva de regulações” se dissipa ainda mais. “Eu acredito que o democrata fará uma concorrência muito mais organizada à China, usando a institucionalidade, como por exemplo, ações na Organização Mundial do Comércio”, completa Attuch.

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