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Santander vê dólar em R$ 4,60 em 2021 e defende ‘imunização’ para retomada

A imunização da sociedade contra o coronavírus é “crucial” no processo de recuperação da economia brasileira, uma vez que tende a melhorar a confiança e aumentar a mobilidade, disse Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander Brasil, ao comentar números, antecipados à Reuters, de revisão de cenário.

“Não adianta você, sem uma imunidade de rebanho e sem uma redução substancial dos índices de contágio, retirar regras de restrição à mobilidade. Isso geraria desconfiança, incerteza, insegurança”, disse Vescovi. “A questão da vacinação é fundamental nesses dois aspectos da recuperação da economia.”

Até o momento, o Santander tem classificado a retomada econômica como “gradual e heterogênea”, com os números reforçando perspectiva de “sólido” crescimento no quarto trimestre de 2020. Mesmo com a retirada do auxílio emergencial, programa para 2021, um “efeito mecânico” da reabertura da economia, sobretudo do setor de serviços, deve compensar a queda na massa salarial ampliada.

PIB

Com isso, o Santander melhorou as estimativas para o desempenho do PIB em 2020, para queda de 4,1%, ante taxa negativa de 4,8% prevista antes. Para 2021, o prognóstico de crescimento foi reduzido a 2,9% (de 3,4%) e em 2022 a atividade deverá crescer 2,5%, contra 2,6% estimado antes.

A inflação, cuja alta voltou a chamar atenção nos últimos meses, deve fechar 2020 em 4,50% (acima do centro da meta, de 4%), contra projeção anterior de 3,30%. Segundo Vescovi, a revisão se deu por choques em alimentos e na taxa de câmbio, que ainda se desvaloriza 21% ante o dólar em 2020, e pelo forte impacto da decisão da Aneel de revisar a bandeira tarifária em dezembro de 2020.

Inflação

O Santander elevou ainda a estimativa para o IPCA de 2021, saindo de 2,90% para 3,00%, em meio à “força do choque (inflacionário) e à duração dele”. Para o IPCA 2022, o banco manteve estimativa em 3,20%. Em ambos os anos, a inflação ainda ficaria abaixo do centro da meta perseguida pelo BC: de ​3,75% para 2021 e ​3,50% para 2022.

O Santander revisou ainda as projeções para a trajetória da Selic, após um tom “menos acomodatício” da parte do Banco Central. A instituição privada passou a ver a Selic em 2,50% ao término de 2021, contra estimativa anterior de 2,00%, com duas altas de 0,25 ponto percentual a partir de outubro.

“O forward guidance (orientação futura do BC) deverá ser retirado a partir de março… mas se a gente perder a âncora de credibilidade de política fiscal a situação fica diferente”, disse Vescovi.

A economista avaliou que a trajetória da política fiscal ficará mais clara somente após a eleição dos presidentes do Congresso Nacional, em fevereiro.

Em seu cenário-base, a hipótese fundamental é o cumprimento do teto de gastos no médio prazo, apesar de dificuldades para sua execução em 2021. A projeção para o déficit primário consolidado de 2020 foi melhorada, saindo de 879 bilhões de reais para 770 bilhões de reais.

“Qualquer coisa que fuja das regras do TCU para o teto de gastos e que gere criação de novas despesas de caráter continuado tornaria a situação do lado fiscal mais difícil”, disse Vescovi, lembrando alerta do Tribunal de Contas da União (TCU) de que os chamados “restos a pagar” estarão sujeitos à regra do teto de gastos no próximo ano.

Dólar

Do lado do câmbio, o Santander manteve projeção de que a moeda norte-americana fechará 2021 em R$ 4,60 e 2022 em R$ 4,15, projeção abaixo do consenso de mercado. O dólar à vista estava em 5,0778 reais nesta quinta-feira.

“Levamos em conta cenário de retomada da economia global, volta do multilateralismo com Joe Biden (presidente eleito dos EUA), de que o Brexit vai passar e de que a guerra comercial não apenas não vai escalar, como vai perder alguns decibéis”, disse a economista, citando que essa combinação de fatores ajudaria na volta do fluxo estrangeiro ao Brasil.

Esse quadro, combinado com uma redução de riscos fiscais via comprometimento com o processo de consolidação fiscal e respeito ao teto constitucional de gastos, poderá reduzir os prêmios de ativos brasileiros em geral, levando o real a se fortalecer de forma “mais pronunciada”, avaliou o Santander.

“Mas se tivermos uma ‘derrapagem’ fiscal, poderemos ter uma depreciação bem acentuada do real. Temos um problema fiscal grave e, para não termos abortada essa recuperação que se inicia, precisamos ter sinais claros da classe política de sustentação ao cenário fiscal por meio de manutenção do teto e recuperação das reformas”, concluiu Vescovi.